09-08-2020 Rui Calisto Imprimir PDF     Print    Print

Escaparate

A ditadura da máscara

É curioso, o modo como algumas pessoas exacerbam o seu grito ditatorial. Naturalmente, cada um de nós possui, com mais ou menos exuberância, uma veia saltada, cheia de sangue despótico, mas, alguns chegam a exageros.

Rui Calisto
Tem sido frequente, ao entrar numa loja, de qualquer espécie, antes de um “bom dia” ouvir um grito saído das entranhas mais tirânicas que existem. Um estridor que traz em si o peso nefasto do que cada um tem de pior, sim, porque aquele “coloque a máscara” que se ouve é o vociferar do mais poderoso espírito de autoridade bacoca.
Das duas, uma: Ou o desgraçado dono do berro possui uma clara tendência para o alistamento (neste caso não podemos chamar de militância) num partido de extrema-direita, ou é simplesmente tolo.
Pode ser, também, uma sumária questão de falta de educação, e, se for o caso, convém ser resolvido de modo elementar: Um curso intensivo com a Sra. Bobone (risos).
Como Portugal é um país de especialistas em tudo - o que se percebe após uma consulta às redes sociais - não deve ser difícil descobrir-se a cura para a tolice (tentar curar as síncopes de extrema-direita é mais complexo, pois requer a frequência num curso de História, de Ciência Política, de Relações Internacionais ou de Filosofia).
As boas relações humanas são essenciais para o aperfeiçoamento social, intelectual e individual de cada um de nós. Saber interagir com o outro é uma arte.
Como questionava Tales de Mileto (624-546 a. C.): “Existe alguma ordem por trás do que aparece? O que aparece é simples alucinação que esconde uma verdade oculta?”
Toda a vez que tomamos uma decisão - neste caso a de admoestar a pessoa que, por descuido, esqueceu-se de tirar a máscara do bolso, escarrapachando-a, colorida e visivelmente, na “fronha” - devemos ter em conta que o bom senso e a boa educação devem andar irmanados. Não quero, com isto, perder tempo a explanar acerca da diferença entre o conceito de relações humanas e de relações públicas, mas, outrossim, e apenas, o de comunicar o básico acerca da importância do “bom dia” anteceder ao irritante coice em forma de frase.
Com um mínimo de educação existirá, certamente, uma melhor qualidade de vida, o que, provavelmente, impulsionará o cliente a regressar ao estabelecimento, refletindo-se em mais dividendos para o cofre da empresa e, por tabela, tal qual o derrube de uma bela fileira de dominós, um aumento de ordenado para o empertigado funcionário. Tudo está relacionado. Se respeitarmos a ordem que surge por trás do que se vê, compreendemos que esta é amparada por uma única verdade (que jamais deveria estar oculta): A falta de cortesia não move montanhas.
Continuando com Tales de Mileto: “há algo de comum a tudo o que existe, uma unidade que pode ser encontrada em meio à diversidade que nos cerca…”, logo, um grito primal poderia ser emitido, também, pelos que cometeram o “delito” de esquecer a colocação da máscara, porém, em silêncio, atiram-no para a tumba das suas entranhas.
A presente obrigatoriedade de uso da máscara (que de modo nenhum contestamos) permitiu algo “extraordinário” e paradoxal: a democratização da ditadura. Dando oportunidade a todo o funcionário de loja, ou instituição, para se sentir importante e exacerbar autoridade. De tal modo que, com os egos assim inflamados, nos faz parecer que o próximo passo que darão não será o de aumentar o tom de voz, mas sim o de erguer uma bandeira fascista.
Gritemos, então, para dentro de nós! Revoltados com o facto de não conseguirmos compreender aquilo que nos liga. E, usemos máscaras, evitando, assim, algum desafogado intestino a caminhar em nossa direção.
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