22-06-2020 Francisco Martins da Silva Imprimir PDF     Print    Print

Estátuas ao racismo

O século XVII foi tempo de racionalismo e revolução científica. Confirmou a passagem do pensamento teocêntrico medieval para o antropocentrismo e laicização da sociedade, que os humanistas já tinham iniciado no Renascimento, com a valorização da experiência pessoal, da Razão e do espírito crítico.

Francisco Martins da Silva
Devido a essa herança cultural, a ciência tornou-se no século XVII actividade profissional e rompeu com misticismos e justificações teológicas e mágicas. Física, astronomia, biologia, química demarcaram-se da metafísica e tornaram-se ciências autónomas. Os cientistas do século XVII recorreram à Razão e à experimentação de modo metódico e sistemático, e criaram uma ciência moderna, quantitativa e mensurável. O método de investigação foi desenvolvido por Francis Bacon e René Descartes. Bacon fundou o empirismo e criou o método experimental. Descartes criou o Discurso do Método, em que defende a dúvida metódica como caminho para a construção do conhecimento científico. Do século XV em diante, os papas, a começar em Pio II, passam a dar instruções inequívocas contra a escravatura. No século XVII, já os conceitos de racismo e escravatura eram abertamente condenados por grandes pensadores como Espinosa, Leibniz, Hobbes ou Locke. No século seguinte, o Iluminismo vem valorizar o ser humano unicamente pela Razão, e definir a felicidade como direito natural e objectivo supremo da existência. No século XIX deram-se passos atrás, com as teorias racistas que suportavam o chamado darwinismo social, para legitimar a dominação e exploração imperialista em África e na Ásia, e o apartheid no século XX. Esta abominação continua a turvar muitas mentes nos nossos dias.
Não é sério desculpar racistas e escravocratas com o contexto histórico ou a mentalidade vigente, pois vem de longe o entendimento de que racismo e escravatura são monstruosidades antinaturais. E é indesculpável conceber uma estátua em 2017, numa sociedade democrática e inclusiva, que representa o poder colonialista e imperialista do século XVII. A unanimidade que persiste na defesa e manutenção de monumentos celebrando figuras que tiveram papel relevante no colonialismo dá-nos a profundidade do nosso racismo. Está tão inculcado que não o conseguimos ver.
A vandalização de estátuas ou de outras formas de memória no espaço público que de algum modo simbolizem a glória de crimes passados — como a destruição de culturas, a imposição de um credo ou a substituição de escravos índios por escravos negros — é um acto desesperado de desistência cívica que ocorre sempre que não há maturidade institucional para a adequação ou remoção desse símbolo.
Sim, as figuras históricas e a representação da sua memória devem ser questionadas em cada momento. A Humanidade evolui. Uma escultura prevista para o espaço público deve proporcionar um olhar pedagógico sobre o passado que representa, de modo que dignifique os presentes. Todos os presentes.
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