08-06-2021 Jorge Mangorrinha Imprimir PDF     Print    Print

Histórias do Termalismo

15. Os Pavilhões do Parque e o Parque dos Pavilhões

Nasceram umbilicalmente juntos. A mão do mesmo projetista ainda se sente. Receberam transformações através dos tempos. E se o Parque é uma joia patrimonial do ponto de vista ambiental e do lazer, os Pavilhões são o seu cenário mais apreciado, embora em estado latente, há muitos anos.

O novo “Hospital D. Carlos” (Pavilhões do Parque) respondia à moda e à estratégia desse tempo (século XIX), para equipar as estâncias com grandes hotéis localizados, muitos deles no interior de zonas arborizadas (Cf. Mangorrinha, Jorge – “Da Felgueira às Caldas da Rainha. A Arquitectura Termal”. In Rodrigo Berquó Cantagalo. Arquitecto das Termas. Caldas da Rainha: Centro Hospitalar das Caldas da Rainha). A ideia de elevar a estância termal das Caldas da Rainha a uma categoria semelhante ou superior às do estrangeiro foi o mote e o fio condutor da vaga construtiva que Rodrigo Berquó introduziu na vila, sob apoio régio de D. Carlos e do governo.
A imprensa local elogiou este esforço inovador, referindo que Caldas ficaria a possuir um dos melhores estabelecimentos termais e hospitalares da Europa, porque as mais afamadas estâncias da França e da Alemanha não tinham a proficuidade das termas nem as magníficas condições climatéricas das Caldas da Rainha, referindo-se, também, que seria do engrandecimento que principalmente dependeria a riqueza vital desta terra (Cf. O Caldense, 442, 2-4-1893. In Mangorrinha, Jorge – “Da Felgueira às Caldas da Rainha. A Arquitectura Termal”. In Rodrigo Berquó Cantagalo. Arquitecto das Termas. Caldas da Rainha: Centro Hospitalar das Caldas da Rainha).
Mas a pena de Bordalo foi diferente em relação a outros periodistas. Quando se pensa, atualmente, perpetuar o nome de Rafael Bordalo Pinheiro no futuro hotel é preciso não esquecer dois aspetos: a sua crítica feroz a Rodrigo Berquó e, também, que Bordalo, apesar de astuto do ponto de vista empresarial, apenas fez obra graças ao desafio familiar, às heranças ceramistas das Caldas e aos seus brilhantes alunos, enquanto Berquó imaginou, desenhou, administrou o Hospital e foi presidente da Câmara, num périplo quase solitário.
Ao longo de várias páginas das revistas humorísticas O António Maria, de 1894 a 1896, e Os Pontos nos ii, nos mesmos anos, Bordalo criou para Berquó uma série de epítetos jocosos como: “Pharaó das Caldas”, “Mazalipatão”, “Eu sou o Pá/ O Chá o Grão/O Grão Pachá/Mazalipatão”; “Capitão-mór no Club”, “Rodriguinho do Campo”, “Supremo Arquitecto das Caldas”, “Prelado das Caldas”, “Anjo do Extermínio”, por exemplo. Além de “Ditador”, ainda aparece retratado com dotes de “Hipnotizador”, capaz de deixar as pessoas “de bocca aberta diante de uma pedreira feita na copa” para uma espécie de “Palácio de Herodes representado no presépio Cesário pulcherico”.
Rafael Bordalo Pinheiro foi um dos grandes contestatários à obra e à personalidade do administrador e projetista das termas, acusando-o de ser manipulador, autoritário e inventor de uma “Berquopólis”. A pena de Bordalo assemelha-se ao que, nestas décadas mais recentes, foi a atuação de um órgão local da Imprensa, no sentido de incendiar contra os seus alvos a opinião generalizada da comunidade.
Berquó foi visionário e quis incrementar o seu sonho numa vila em progresso, viajando para tal por outros países e trazendo com ele experiência técnica noutras termas portuguesas. Bordalo fez do seu jeito para o desenho, primeiro, uma incursão nas artes gráficas, copiando e adaptando, muitas das vezes, desenhos de autores franceses, alemães, ingleses e espanhóis, e na cerâmica, com intuitos comerciais, apropriando-se do Naturalismo, já inventado séculos antes.
Se a cerâmica será uma temática admissível no futuro hotel, mas não necessariamente a única, por causa da ligação simbólica e empresarial à Fábrica Bordalo Pinheiro, a denominação do hotel parece-me, no mínimo, uma desfaçatez em relação à memória do grandioso empreendimento de Berquó e, sobretudo, em relação à irónica, mas ignóbil, crítica de Bordalo.

Os Pavilhões do Parque devem-se a Berquó e não a Bordalo

Certo é que, não sendo uma obra doutrinal da arquitetura finissecular, os Pavilhões do Parque têm importância nas arquiteturas da saúde em Portugal e, ainda, no contexto reformista das termas e da vila, uma presença fundamental na imagem do Parque D. Carlos I (espaço diferenciador do centro histórica da cidade).
As duas realidades – Parque e Pavilhões –, em conjunto, não dependem, porém e apenas, das suas características intrínsecas, dependem também da imagem que temos dela, e esta difere de acordo com o olhar de cada observador, consoante as representações das mesmas, em cada momento. Conhecemos narrativas antigas sobre o Parque e os Pavilhões, que nos oferecem uma viagem ao invisível, porque a sua história existe na sombra do real, embora a realidade física possa trazer-nos, ao olhar, representações desses tempos mais antigos.
O que importa é que, entre os tempos antigos e a realidade presente, o Parque e os Pavilhões façam parte da nossa cultura visual e experiencial. As experiências do espaço têm sido mais abertas no Parque. As experiências nos Pavilhões deram-se pelas diversas atividades ali acolhidas, bem como numa eventual visita ao espaço suspenso e expectante do presente e, espera-se, que no futuro elas não se fechem aos cidadãos.
A gestão do Parque está, presentemente, nas mãos da União das Freguesias das Caldas da Rainha – Nossa Senhora do Pópulo, Coto e São Gregório, por transmissão de competências, enquanto os Pavilhões do Parque estão à guarda da Câmara Municipal, desde que o Ministério da Saúde se demitiu da concessão da água mineral natural e da gestão do Hospital Termal e dos seus anexos. A Câmara tomou posse da gestão deste património, pela primeira vez na história. E perguntaram-me, há dias, em entrevista, o que faria se fosse o futuro presidente da Câmara. Ora, sabendo-se que isso não irá acontecer, situemo-nos no campo do desejo do cidadão, com base nos conhecimentos acumulados e transdisciplinares sobre a matéria. Efetivamente, tanto no Parque como no projeto obscuro dos Pavilhões para hotel, as atitudes dos responsáveis e os projetos de intervenção podem e devem ser melhorados – já o referi anteriormente –, apesar de constar que os do hotel já foram aprovados, numa primeira fase.
Talvez eu não tenha a razão do meu lado, mas aos caldenses e aos visitantes informados das boas práticas de uso dos espaços verdes e da arte de fazer arquitetura caberá uma opinião – opinião, quem sabe, ao estilo bordaliano –, quando o peso imagético dos corpos novos do hotel sejam a presença mais evidente do conjunto.
A cidade será sempre o espelho daquilo que lhe querem ou deixam fazer, por vezes lamentavelmente.
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