04-03-2020 Marlene Sousa Imprimir PDF     Print    Print

Projeto Km Zero Oeste

Incentivar o consumo de alimentos produzidos localmente

Rogério Godinho, médico gastroenterologista do Hospital do Espírito Santo de Évora e conferencista da rede de Cidadania de Montemor, um grupo que privilegia a economia sustentável, desafiou a replicação no Oeste do projeto Km zero, que tem como principais objetivos incentivar o consumo de alimentos produzidos localmente. Esta iniciativa visa um consumo dos alimentos até 50 quilómetros do seu local de produção, reduzindo a sua pegada ecológica e contribuindo para a valorização dos pequenos agricultores do território.

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Paulo Caiado, Amélia Sá Nogueira, José Carlos Faria e Rogério Godinho

Rogério Godinho, que faz parte do projeto Montemor-o-Novo Km Zero, foi o orador da conferência “Quilómetro Zero, gastronomia e Pegada Ecológica”, que decorreu na passada sexta-feira na Lavandaria do Hospital, numa iniciativa do Conselho da Cidade.

Numa refeição tão comum e portuguesa como o bitoque, em que “a carne é importada da América do Sul, as batatas de França, a salada de Israel, o vinho da Austrália, a fruta de Espanha e o trigo para o pão da Rússia - há maior gasto de energia nos processos de transporte, armazenagem e embalagem do que o ganho energético dessa refeição”, explicou o orador.

O médico falou do projeto quilómetro zero montemorense que está a ser desenvolvido por uma equipa mista envolvendo técnicos da Câmara, Rede de Cidadania de Montemor-O-Novo e outros cidadãos motivados para o tema, contando também com a colaboração da Universidade de Évora. O projeto pretende a gestão sustentável dos recursos energéticos e diminuição da pegada ecológica alimentar. Tem ainda como objetivos a defesa da economia local e dos pequenos agricultores e contribuir ainda para a preservação dos sabores locais e das sementes hortícolas do concelho. 

“Sendo as Caldas e o Oeste uma região rica em frutícolas e hortícolas e uma vez que a nível internacional o conceito Km Zero é reconhecido, após a experiência que tem vindo a decorrer no Km Zero Alentejo e no concelho de Montemor-o-Novo, de forma informal, considero que pode funcionar nesta zona”, adiantou o médico.

Rogério Godinho disse que é “muito simples replicar o projeto desde que haja vontade, referindo que “não necessita das entidades públicas, mas obviamente que funciona melhor com a sua parceria”. O médico explicou que para criar o projeto Km Zero Oeste o ideal é juntar um conjunto de parceiros “para a dinamização da produção local de produtos agroalimentares, estimulando o seu consumo em estabelecimentos de restauração, lojas e venda de produtos alimentares, assegurando que as atividades de transformação e venda ao consumidor final são realizadas num raio de 50 quilómetros do seu local de origem, um conceito nascido em Itália”.

No projeto quilómetro zero montemorense Rogério Godinho referiu que no festival das sopas, os restaurantes participantes foram desafiados a apresentar uma sopa km zero, confecionada com produtos locais. A experiência foi muito positiva mantendo-se nas edições seguintes.

Ainda numa fase inicial pretende-se incentivar a criação de uma zona/prateleira nas superfícies comerciais da cidade, reservada à venda de produtos com origem no concelho. Pretende-se contribuir para aumentar gradualmente a utilização de produtos locais nas refeições da cantina escolar. Esta ação encontra-se a decorrer, estando já identificado na ementa um ingrediente Km zero.

O médico ambiciona estrear uma moeda local que está a ser criada em Montemor-o-Novo. A moeda “Mor”, que está a ser desenvolvida, vai ser digital e pretende incentivar a economia local.

 

Maçã da China viajou milhares de quilómetros

 

A sessão contou com três comentadores que iniciaram o debate. Amélia Sá Nogueira começou a dizer que se sente privilegiada por viver numa cidade que tem o único mercado diário a céu aberto do país, que apesar de ter produtos de grandes distribuições ainda tem muitos produtos e produtores locais. 

Amélia Sá Nogueira foi à “caça da origem do produto” e levou ao evento uma maçã de São Gregório, uma pera de A-dos-Francos e um limão do seu limoeiro. Adquiridos numa grande superfície nas Caldas tinha uma maçã da China, uma pera da Argentina e um tomate de Marrocos. “O que leva um consumidor quando tem acesso a este tipo de produtos locais a adquirir outros numa grande superfície quando o preço é muito semelhante?”, questionou. No final ofereceu um saco de sementes nacionais de espinafres, tomate, alface, entre outros, às pessoas presentes.

José Carlos Faria recuou ao século XIX, onde Bordallo e Grandela na Foz do Arelho, banqueteando-se com belas couves da região e com o peixe da Lagoa, estavam de alguma forma no conceito do quilómetro zero. É curioso como uma grande parte desses ingredientes acabou por passar para a cerâmica de Bordalo - as couves, peixes, lagostas, entre outros.

Defendeu a troca de sementes, “quando estamos perante ameaças globais complicadas com gigantes multinacionais a tentarem ficar com o monopólio das sementes, que é um perigo acarretando mutação genética das sementes”. Falou ainda da desmatação da floresta, por via da intensificação da cultura da soja.

Paulo Caiado disse que a pegada ecológica aumentou na parte alimentar com o advento das grandes superfícies que “tomaram lugar no nosso dia a dia pela disponibilidade dos produtos em stock, grande diversidade que oferece e a acessibilidade nomeadamente o nosso conforto em podermos ir a um único local para comprar os vários produtos e termos a possibilidade de podermos comprar ao preço da chuva e ter lugar para estacionar”. “Na realidade só precisamos cerca de 1/5 do que o supermercado oferece e todo o resto é marketing”, apontou.

Criação da marca Oeste

 

Este responsável defende um “movimento nacional de começar-se a preferir de novo os produtos locais”. “Mas isso só é possível se for criada por exemplo uma marca da região Oeste que pudesse identificar os produtos que são produzidos nesta região”, alertou, acrescentando que se começar a haver um aumento de consumo desse tipo de produtos ”as grandes superfícies vão atrás”.

Destacou as Caldas da Rainha por estar no centro da maior produção frutícola e hortícola do país, lamentando que seja também a “capital de supermercados, com catorze e com a vinda de mais três”.

Depois das intervenções gerou-se um debate interessante à volta da promoção dos produtos locais.

 

Maratona dinamizou jantar Km Zero

 

No final decorreu o primeiro jantar Km Zero nas Caldas, com uma ementa de produtos locais dinamizada pelo restaurante Maratona.

Para a canja foi utilizada uma galinha do Campo e ovos do Landal. Vários legumes utilizados para a ementa como a cenoura, alho francês, aipo, batata doce, couve roxa beterraba e nabo foram produzidos em Salir do Porto. As cebolas e brócolos eram do Pó (Bombarral), os queijos de Alcobaça e as compotas caseiras das Caldas. O coelho era do Pó, o carapau de Peniche, maçã de Alcobaça, arroz de Lezíria Ribatejana, perna de porco da Lagoa Parceira, pera de Salir de Porto, aguardente da Lourinhã, favas secas, copos de chocolate e ginja de Óbidos, frutos vermelhos do Bombarral e laranja das Caldas.

Segundo a intervenção do médico António Curado, em nome do Conselho da Cidade, o jantar que contou com a presença de 70 pessoas pretendeu “dar visibilidade, de uma forma agradável e convivial, a este conceito km Zero” e porque não à sua futura utilização “nos restaurantes do concelho das Caldas ou da região”.

Em declarações ao JORNAL DAS CALDAS, Ana Leal, presidente do Conselho da Cidade, disse que “vamos ponderar se eventualmente nos vamos organizar em rede para criar o projeto Km Zero Oeste”.  

 

“Quilómetro Zero…e a Praça Aqui tão Perto”

 

O evento iniciou com a inauguração da exposição de fotografias “Quilómetro Zero…e a Praça Aqui tão Perto”, constituída por imagens de Edgar Libório, Jorge Mangorrinha, Liliana Resende, Margarida Araújo e Nuno Conceição.

O fotógrafo Edgar Libório tem expostas sete fotografias da Praça da Fruta, em que três são aéreas tiradas com um drone, onde é possível ver as várias cores dos toldos do mercado e quatro imagens mais pequenas de texturas/cores de frutas, legumes e frutos secos de produtos que são vendidos diariamente da Praça da Fruta.

"Falium" é o título da instalação de Jorge Mangorinha, com abóbora assente em serapilheira e em caixa antiga do Centro Hospitalar das Caldas.

Tem ainda uma fotografia digital do interior de uma abóbora (Abóbora-Menina, Abóbora-Mulher é o título da fotografia) capturada na “Praça da Fruta”.

A exposição está patente no Museu do Hospital até ao final deste mês. 
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