29-03-2016 Mariana Martinho Imprimir PDF     Print    Print

Nuno Costa Santos mistura realidade e ficção no seu romance “Céu Nublado com Boas Abertas”

Entre a realidade e a ficção entramos nas páginas do primeiro romance de Nuno Costa Santos, “Céu Nublado com Boas Abertas”, no passado dia 18, na sessão de apresentação do livro na livraria Bertrand das Caldas. Juntou fãs, amigos e curiosos, que, movidos pelo mediatismo do escritor, aproveitaram a oportunidade de o conhecer e de comprar um exemplar.

Luísa Arroz e Nuno Costa Santos na apresentação do livro na Bertrand das Caldas
Nuno Costa Santos apresenta-se como uma personagem que dispõe de um vasto currículo na área da escrita. Desde livros de poesia, de crónicas, de contos, bem como a biografia de Fernando Assis Pacheco, os blogues, e ainda os programas de rádio e de televisão. Para o autor, o seu primeiro romance é “ um livro que mistura vários géneros, em que espero que os leitores se percam entre a realidade e a ficção, que se sintam confusos”.
Logo nas primeiras páginas somos brindados com a história do seu avô, João Pereira da Costa e o olhar de Nuno Santos sobre o livro escrito pelo mesmo, na estante da sua casa, em Lisboa. Recorda-o como “um homem sentado numa poltrona, sempre acompanhado com uma garrada de oxigénio comprido e estreita de onde saíam tubos que se ligavam às narinas”. Durante seis anos o seu avô relatou a sua dolorosa experiência de tratamento da doença, tuberculose, no sanatório do Caramulo.
Passados vinte anos, Nuno Santos decidiu escrever o primeiro romance, o “Céu Nublado com Boas Abertas”, onde optou por fazer uma espécie de “diálogo entre a experiência do avô e a viagem aos Açores de hoje”. Assim, ao longo das páginas da obra, verifica-se uma mistura entre todas as histórias encontradas na ilha de São Miguel durante a sua estadia e as pequenas descobertas feitas pelo mesmo, quando reviveu alguns lugares da infância, onde “confunde-se a realidade e a ficção”.
À medida que dá a conhecer a história da sua família ao leitor, intercala com episódios de outras personagens “peculiares e fundamentais”, como a Ruiva do Pico, o Marinho, um homem que viveu décadas ressentido por um porteiro, e um casal asiático que tenta criar raízes numa terra portuguesa.
Para Nuno, a obra “baseia-se muito na realidade, e ao mesmo tempo, tem armadilhas da ficção, criando universos que de facto vivi e outros que inventei”, acrescentando que também é um diálogo entre dois homens de gerações diferentes, avô e neto.
Ao mesmo tempo, descreve como um ”ato de gratidão para com o meu avô e com a minha terra”. Questionado sobre o título, esclarece que não podia existir titulo mais literal, “um céu nublado, pelo definhamento do avô à tuberculose, com boas abertas para um novo e futuro livro”.
“O Céu Nublado com Boas Abertas” retrata o destino “quase fatal do avô” de Nuno Santos, na estância do Caramulo, e das pessoas que vivem, no século XXI, em São Miguel.

“Morena das Caldas fala sobre o romance do português dos Açores”

Luísa Arroz, subdiretora da ESAD.CR foi a convidada para apresentar a obra na livraria, descrevendo-se como “Morena das Caldas fala sobre o romance do português dos Açores”.
Começou por falar na personagem a “Ruiva do Pico”, que “anima o enredo, tão central quanto fugaz de um dos episódios, sempre com um tom zombeteiro, que atravessa o texto, e que nos faz rir, perante as confissões e ressentimentos de outras personagens, que nos vão aparecendo quase como sobreviventes de um certo naufrágio existencial”.
“O Céu Nublado com Boas Abertas” retrata um tom que “estamos habituados a ouvir nas conversas e textos do Nuno Santos”. Sendo este um autor de um conceito “melancólico, que descreve tão bem, o nosso quotidiano que por vezes, nos escapa”.
Ao mesmo tempo, Luísa Arroz sublinha o “olhar simultaneamente distante e sem preconceito ou moral, que nos traz uma tranquilidade absoluta na forma como nos conduz”, tanto pelas histórias que forçam a entrada do narrador, bem como o “mau estar interior que embala entre insónias e absurdos”.
“Esse tom de humor baixo funciona como uma linha rítmica que acentua a melodia e é um dos principais motivos pelos quais vos recomendo a leitura deste livro”, adiantou a convidada. Destacou ainda a novela policial que “força a entrada e a visita do narrador aos Açores, complementada pelas personagens açorianas”.
“Há uma certa lateralidade deste enredo que nos entretém, que para mim é genial”, disse Luísa Arroz, enquanto acompanha a tarefa do narrador de contar as histórias da ilha e do seu avô. Também falou sobre a história de romance do “casal na fotografia a preto e branco, e em particular desse homem do retrato”, sendo depois transportados para outra história, através de um manuscrito que é dado a conhecer ao narrador e seremos transportados para a luta lenta, dolorosa contra a tuberculose.
“Entre a novela e o drama do avô também temos um narrador em busca de si próprio”, adiantou, sendo dois tempos históricos que sobrepõem os anos 40 e o presente da ilha. Para a convidada, “não é uma comparação entre épocas ou espaços, mas uma espécie de cartografia de sentimentos, pequenas histórias e confissões, que registam a mudança na continuidade dos lugares quase como quiséssemos fazer uma pergunta”.
“Há algo geracional na forma como este romance olha para o mundo e para a nossa história”, concluiu, deixando o desejo de ir visitar a ilha para “perceber as ironias presentes na obra feitas pelo autor”.
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