07-08-2019 Imprimir PDF     Print    Print

Escaparate

O Parque D. Carlos I entre aromas e cores

O tempo passa e as memórias vivas permanecem. Conheci o Parque D. Carlos I no ano de 1975, quando cheguei a Portugal, vindo da Cidade Esmeralda (Luanda). Desde aquele ano, até aos nossos dias, muita coisa mudou naquele recinto, especialmente a graça e a beleza.

Aquele espaço era, praticamente, um santuário ecológico. Multicolorido, com surpreendentes canteiros, transbordantes das mais diversas espécies de flores e plantas, literalmente para todos os gostos; a relva, sempre verde; as alamedas muito bem cuidadas e asseadas; o lago reluzente, de tão limpo; os pavilhões ocupados, e em cuidado permanente; a Casa da Cultura “a ferver”, com inúmeros eventos a sucederem-se. Sim: O Parque D. Carlos I era motivo de vaidade. Caldas da Rainha era uma cidade de Cultura! Reconhecida por todo o país, como tal.
Talvez, caro amigo e leitor, ainda tenha alguma reminiscência do canteiro que ostentava o brasão da cidade. Consegue lembrar-se? Que primor. Que orgulho para os caldenses. O Sr. Tobias e um outro senhor, cujo nome, infelizmente, não me recordo, eram os jardineiros, ambos, extremados e com um inexcedível esmero, cuidavam de todo o local com uma paixão inacreditável.
Vem-me à lembrança, também, as feiras da Fruta e da Cerâmica, que ocupavam diversas alamedas, porém, nunca invadindo os canteiros, não danificando, portanto, os espaços verdes.
As genetas, os ouriços-cacheiros, os musaranhos, as toupeiras, os morcegos, entre outras espécies, ocupavam toda a área do fundo do parque (aquela que fica próxima das antigas instalações da Fábrica Bordalo Pinheiro) e, de vez em quando, era possível ver algum desses espécimes em outros recantos daquele belíssimo espaço verde.
Era notoriamente visível o cuidado com a preservação do Parque D. Carlos I e com a sua diversidade ambiental. Aliás, existia, inclusive, um projeto de ampliação, com a conversão e a aquisição de terrenos e áreas abandonadas, existentes em seu entorno, e que, se fosse feito, estenderia, de modo exponencial, o pulmão verde das Caldas da Rainha (onde a Mata Rainha D. Leonor estaria incluída também).
O Prof. Frances Kuo, da Universidade de Illinois, desenvolveu uma série de estudos “sobre os efeitos das árvores, das plantas e do paisagismo nos parques e áreas públicas |…| as pessoas têm relações mais felizes e melhor desempenho quando vivem em bairros mais arborizados. Acreditam que viver perto de espaços limpos, bem cuidados e conservados é essencial para a melhora do estado físico, psicológico e bem-estar social, criando uma atmosfera mais civilizada, incentivando uma reação em cadeia positiva |…| as cidades precisam dar total atenção aos seus espaços verdes, contribuindo de forma considerável para a melhora de vida da população em geral. Além do facto de que áreas verdes bem cuidadas contribuem para o meio ambiente e embelezam a cidade.”
O Parque D. Carlos I, atualmente, não possui um projeto paisagístico; um programa de proteção de espécies; uma catalogação de castas. Os seus monumentos estão negligenciados; os canteiros cinzentos, sem rega adequada; as árvores pejadas de fungos; os Pavilhões e a Casa da Cultura num inconsolável abandono.
Por isso, evocar aquele momento, do ano de 1975, é trazer à tona uma memória saudável. Com a janela da alma a recordo! Quisera que muitos soubessem do que digo, mas, não sabem, pois já não há canções de amor, somente um parque esquálido, alimentado pelos desnortes da publicidade barata das redes sociais. Paz à sua alma, meu caro Rodrigo Berquó.

Rui Calisto
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