12-03-2019 Rui Calisto Imprimir PDF     Print    Print

Escaparate

O Coto

A minha mãe nasceu no dia 7 de julho de 1930 no Coto, mais precisamente, nos Casais de S. Jacinto, numa época em que nascer em casa era a coisa mais normal do mundo. Era filha da Celestina (1902-1990) e do Rui Mateus (1899-1956) e irmã do Luís (1924-1987), da Aida (1927-2007) e do Fernando (1930-2009). A sua infância foi passada ali, em ternurentas brincadeiras com os irmãos, ora na propriedade da família, ora nas imediações da Capela de S. Jacinto, “Capela barroca, de planta retangular com sacristia adossada de planta quadrada; nave única com paredes revestidas de azulejos azuis e brancos, decorativos e historiados; teto de madeira de três planos; capela-mor com cobertura em abóboda e paredes revestidas a azulejos”.

Rui Calisto
Foi o Rei de Portugal e Algarves D. João V (1689-1750) que a mandou edificar, sendo dada por concluída no ano de 1745. Data, aliás, “pintada na cruz de azulejos sobre a porta da sacristia, que ajuda a datar não apenas o edifício, mas também a campanha azulejar do seu interior”.
Lembro-me, como se fosse hoje, das histórias contadas sobre o Coto e as suas gentes, numa época em que a palavra valia ouro e a amizade era balizada pelo respeito e o espírito de entreajuda.
Em 1930 a vida passava mais devagar. As pessoas do Coto viviam basicamente da agricultura, alguns da cerâmica (como era o caso do meu avô Rui Mateus, escultor das Faianças Bordalo Pinheiro) e era muito comum “virem às Caldas” montados num burro, ou de carroça, entre fardos de palha, couves, batatas, maçãs e subtis devaneios. O meu avô vinha a pé, dizia que o exercício o fazia mais atento às coisas do mundo.
Nesse ano, creio que os do Coto não tiveram noção do surgimento dos filmes “Lisboa, Crónica Anedótica” ou “A Severa”, ou ainda do documentário “Maria do Mar”, três marcos da filmografia portuguesa com “o dedo mágico” de José Leitão de Barros.
Provavelmente também não lhes chegou ao conhecimento a promulgação da lei institucional “que definiu as formas de relacionamento entre a metrópole e as colónias portuguesas (…) aprovada em 1930, durante o período da Ditadura Nacional que antecedeu o Estado Novo, no governo de Domingos da Costa Oliveira, pelo Decreto nº 18.570, de 8 de julho”, a que deram o nome de ato colonial.
Aquele lugar, situado no “extremo norte do termo de Óbidos, fazendo barreira a Salir de Matos…” era por demais bucólico, com as suas grandes searas de milho, os seus pomares coloridos, e o voo desconcertante dos milhares de pássaros, de diversas espécies, que cortavam o ar, encantando olhares e amainando corações.
A menina Elvira corria, junto com os irmãos, sob o olhar atento da mãe, levando, entre dedos, alguma flor, e na mente alguma fantasia pueril, sem as preocupações de dias futuros, sem obrigações, sem sequer imaginar o mundo que se estendia para todos os lados.
O Coto, daquela primeira metade do século XX, era mais bonito do que é hoje, pois, as cores e os sons da natureza sobressaíam-se, preenchendo todos os vazios, sem pressa de acontecer. Muito diferente deste início de século XXI, onde o ruído dos motores, o afogo das horas e o ocaso das ilusões, faz-nos julgar a brevidade da vida. Naquela época os dias eram muito maiores, não por uma questão de relógio, mas por insciência e excesso de serenidade na alma.
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