31-08-2021 Rui Calisto Imprimir PDF     Print    Print

O jovem Sinfonias

Sinfonias foi um bom rapazito. A sua história é digna de um romance de capa e espada. Nasceu no Brasil, viveu em Angola e, em trágica data, nos idos de 1975, foi despejado em Portugal.

Até aos nove anos de idade, em terras brasileiras, estudava latim, inglês e francês, depois, já em Luanda, apanhou energicamente da senhora professora primária – nascida em Lisboa, filha do Estado Novo e irmã da arrogância, típica de quem desconhece o que são Direitos Humanos – só porque “falava brasileiro”.
Aos dez anos e meio de idade foi morar na casa da avó materna, nas Caldas da Rainha. A sua vida passou a ser comum, diria mesmo, pobre. Os seus professores mal sabiam falar a língua materna, os colegas “de estudos” andavam descalços, a correr por ruas de terra e a acreditar que o futuro era apenas uma bola de futebol.
Só e desamparado, refugiou-se nos livros que tomava de empréstimo na Biblioteca da Gulbenkian (que em boa hora lhe fora apresentada pelo avô paterno), situada nos desafortunados pavilhões que jazem no Parque D. Carlos I.
Quando não estava na escola, a desaprender, habitava o sofá da sala. Retiro perfeito e silencioso, onde conseguia manter diálogos acesos com os seus amigos imaginários, os mesmos que com ele discutiam trechos de Fernando Pessoa, Almeida Garrett, Castro Alves, Eça de Queirós, etc…
Raras vezes saía com a avó materna. Nunca teve uma festa de aniversário. Desconhecia o Castelo de Óbidos. Praias, nem vê-las. O mais longe que conseguiu ir foi à Mata Rainha D. Leonor. O horizonte do seu mundo era ao virar da esquina.
Um dia, começou a ouvir vozes, saltavam-lhe em catadupas das páginas de Machado de Assis, Jorge Amado e Camilo Castelo Branco. Foi um “Deus nos acuda”. Ficou íntimo das personagens por eles criadas. Passou a conhecer os meandros das intrigas, os arroubos secretos dos apaixonados e os desejos dissimulados dos malandrins. A sua vida, tingida a preto, passou a cinza, o que poderia significar uma evolução.
Em 1980, um qualquer jornal estampou a morte de John Lennon (1940-1980) e dois anos depois a de Elis Regina (1945-1982). Acordou para a música. Comprou um toca-discos e alguns vinis. O seu refúgio passou a ser menos taciturno.
Apesar do exílio, Sinfonias andava constantemente com uma estampada felicidade no rosto, pois sabia que vivia numa terra de invejosos, que ficavam felizes com o sofrimento alheio. Passou a andar de cabeça erguida e tinha sempre uma frase de efeito, preparada para atirar ao rosto dos que o queriam menosprezar. Cuidava de si. Tomava banho todas as manhãs, escovava muito bem os dentes, tratava do cabelo.
Em 1981, tentou jogar ténis. Foi sozinho ao clube local. Depois de um pequeno interrogatório, apesar de ter mostrado imensas qualidades técnicas (sem nunca ter tido a oportunidade de praticar aquele desporto) foi avisado de que não poderia inscrever-se, faltava-lhe pedigree (uma ascendência nobre), e morava no bairro da ponte, um “pouso de operários e não de pessoas de alta linhagem como nós”.
Junto da família passou a ter alternância de humor, diminuição de energia, indisposição social, falta de apetite, perda de peso, excesso de sono. Entrou e saiu de depressões sem nunca ninguém o supor possuidor de uma.
Uma manhã esbarrou numa frase de Albert Einstein: “Triste época! É mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito”. Colocou-a numa folha de papel, afixando-a ao lado da cama. Foi o seu hino por muito tempo.
Em janeiro de 2001, enquanto admirava uma réstia de sol que bisbilhotava as entranhas da casa, Sinfonias morreu, devorado por sua própria alma.
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