08-02-2020 Francisco Martins da Silva Imprimir PDF     Print    Print

Por que odiamos

O canal Discovery transmitiu a série documental intitulada “Why We Hate”. Nos seis episódios produzidos por Steven Speilberg e Alex Gibney demonstra-se com argumentos científicos que o ódio é uma construção mental, e como os próceres populistas manipulam ignorância e preconceitos para incrementar grupos de ódio.

Francisco Martins da Silva
A priori, está o instinto. O nosso cérebro não mudou muito desde a Idade da Pedra. Continuamos a ter cérebros adaptados à vida em pequenos grupos, considerando seguro e bom o que está dentro do grupo e uma ameaça tudo o que está fora. Na Pré-História, essa era uma medida de protecção e os nossos cérebros desenvolveram-se assim por segurança. Apesar de hoje vivermos numa sociedade global, persiste o instinto tribal. Amamos e protegemos os do nosso grupo e odiamos e agredimos os outros.
Mas a nossa mente evoluiu, ganhou flexibilidade. Tendo nós grande capacidade de odiar e causar o mal, de nos transformar em monstros, a civilização, o conhecimento científico, deu-nos a capacidade de nos segurarmos à nossa humanidade. O ser humano actual consegue controlar o comportamento e recusar que o ódio determine as acções. Os ódios racial, religioso, nacionalista ou clubista são opções. Infelizes, estúpidas, trágicas opções.
O último Europian Social Survey (inquérito bienal de âmbito europeu, dirigido por uma equipa científica da University of London, do Reino Unido) conclui que, entre 40 mil inquiridos de vinte países europeus, os portugueses são os mais racistas. Às perguntas “Acha que há raças ou grupos étnicos que são por natureza menos inteligentes do que outros?” e “Acha que há raças ou grupos étnicos que são por natureza mais trabalhadores do que outros?”, cerca de metade dos inquiridos portugueses respondeu que sim.
Urge usar nas nossas escolas o arsenal científico que a referida série documental revela. Urge usá-lo também na formação das forças policiais e militares. Não se trata de electrochoques, lobotomias ou implantes biónicos. Trata-se de aplicar psicologia social e neurociência cognitiva. É apenas formação que promove o conhecimento e a humanização do outro, que é sempre, no essencial, igual a nós. A melhor forma de superar todo o ódio e irracionalidade é educar as pessoas acerca de como funciona a mente, ficando cientes do processo mental que leva aos preconceitos. Ganhar controlo consciente de processos inconscientes. Estando cientes da base psicológica do ódio e do preconceito, a atitude natural é superá-los. Que o “inimigo” é igual a nós, é a óbvia e desconcertante aprendizagem que essa formação proporciona.
A sua instrução na nossa polícia seria benéfica na prevenção do conflito racial em Portugal, potenciado por actuações inqualificáveis de alguns, demasiados, agentes. Segundo a Procuradoria-Geral da República, em média, são feitas semanalmente em Portugal seis queixas de violência policial, por ofensa à integridade física e abuso de autoridade, sempre com contornos de cariz xenófobo ou racista.
Esta série documental deixa-nos a esperança de que a ciência, através do ensino, possa contribuir para neutralizar os conflitos intergrupais, possibilitando um mundo mais fraterno, harmonioso, pacífico.
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