28-11-2020 Francisco Martins da Silva Imprimir PDF     Print    Print

Dicotomia inútil

Os termos "esquerda" e "direita" apareceram durante a Revolução Francesa, quando os membros da Assembleia Nacional se dividiram em partidários do rei à direita do presidente e simpatizantes da revolução à esquerda. Os termos “moderados”, “extrema-direita” e “extrema-esquerda”, bem como “centro-direita” e “centro-esquerda”, surgiram depois para descrever os vários cambiantes ideológicos intermédios.

Francisco Martins da Silva
Nogueira Pinto, politólogo e publicista, propõe o essencial desta divisão: à esquerda, optimismo antropológico, utopismo, igualitarismo, democratismo, internacionalismo; à direita, pessimismo antropológico, antiutopismo, elitismo, nacionalismo. À esquerda, a ideologia do movimento; à direita, a ideologia da ordem. À direita, a continuidade das ideias; à esquerda, a descontinuidade ou a aceleração (revolução).
Não há muito tempo, campou a ideia de que a díade esquerda-direita estava ultrapassada. «São todos iguais» — a noção larvar. Analistas políticos como Eric Dupin ou Friedrich Hayek passaram a defender que a classificação de "esquerda" e "direita" perdeu significado num mundo mais complexo que a mera combinatória das dimensões política, económica e social.
Mas o que se tem visto é o aprofundar das duas trincheiras. Hoje, as sociedades ocidentais estão mais polarizadas que nunca. Os de direita acusam os de esquerda de falência moral e ideológica, por tentarem invadir o território da direita ao adoptarem um conservadorismo hipócrita e por abandonarem as suas causas tradicionais (dos trabalhadores, da injustiça social, et cetera), para se dedicarem a saber quantos géneros há, a impor uma terceira casa-de-banho pública, a policiar a linguagem, e a outras coisas caricatas e tontas como a defesa de ditaduras infames como a da Coreia do Norte ou o chavismo venezuelano.
Mas, aos olhos da esquerda, a direita também cai no irrisório ao defender a castração química de pedófilos, a prisão perpétua e a segregação por etnias, a par de questões de moral sexual reaccionárias e nada realistas e do desejo de regresso ao passado mítico da nação.
Como perguntava Salman Rushdie numa entrevista recente no semanário Expresso, o estribilho populista Make America Great Again refere-se a que América? Quando é que a América foi grande? Aquando do extermínio dos indígenas? Antes da abolição da escravatura? Antes de as mulheres terem direito de voto? Antes do Movimento dos Direitos Civis? Boris Johnson também fala da idade de ouro da Inglaterra a que é possível voltar se se livrar de todos os estrangeiros. Que época fabulosa foi essa? O período de poder e riqueza em que os ingleses exploraram metade do planeta?
A esquerda acusa a direita de usar a mitologia da idade de ouro para justificar comportamentos sem escrúpulos no presente, e encarniça-se contra o que chama populismo, sem perceber que é a caricatura esquerdista em que se converteu que dá espaço à rejeição e à inversão cega à direita, porque a direita populista aparenta abraçar as tais grandes causas que eram tradicionalmente de esquerda.
Esquerda e direita forçam a realidade à ideologia respectiva. É por a realidade não caber em modelos que os monóculos ideológicos estão a priori ultrapassados. As sociedades dispensam antagonismos estéreis. Os princípios são bons se servirem, sendo indiferente qual a tribo que os reclama.
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