16-01-2021 Francisco Martins da Silva Imprimir PDF     Print    Print

Capital político

Passos Coelho, que se prontificou a ir além da troika, é o nosso Pétain, chefe de um governo colaboracionista, pusilânime e servil com o agiota tricéfalo, mas inflexível e ríspido para os concidadãos.

Francisco Martins da Silva
Comovidos pelo discurso do ex-primeiro-ministro, proferido em Lisboa, na Academia das Ciências, numa conferência de homenagem a Alfredo da Silva, diversos correlegionários, saudosos desse período miserável em que Lisboa foi Vichy, apressaram-se a declarar que «Passos falou com meridiano desassombro e clareza, e disse coisas sensatas e acertadas» e que «Mantém o seu capital político intacto».
Vai-se ver e, afinal, apenas alinhavou algumas banalidades já muito glosadas pela habitual pletora de comentadores. O acólito mais dilecto, Miguel Relvas, essa referência de probidade, também conhecido pela eficácia dos seus empenhos e facilidades e para sempre lembrado pela interpretação mais canhestra da Grândola e por protagonizar uma revisão relativista do conceito de habilitações literárias, disse mesmo que «As suas qualidades em 2020 não são distintas das que tinha quando deixou a presidência do partido».
Não tenhamos dúvidas, portanto. «Não sejam piegas e empobreçam, vejam no desemprego uma oportunidade, saiam da vossa zona de conforto e emigrem» — eis a motivação que nos tem faltado e que podemos ter de volta, caso a direita, incluindo o histriónico-ariano-eugenista-Chega e outros grupúsculos que garimpam a oeste do PSD, se articule para reintegrar o profeta do diabo.
A expressão “capital político” é uma analogia bacoca, digna de licenciados por equivalência, e pode ser capciosa. Como é sabido, o capitalismo tem como objectivo o aumento da produção, visando a acumulação de capital, que só pára quando há uma crise económica e/ou financeira em que o dinheiro deixa de ter valor real. O “capital político” de Passos Coelho não tem qualquer valor real fora do circuito fechado da intriga partidária.
É apenas quimera ainda acalentada pelo ex-irrevogável aparelho do “não há alternativa” e do “colossal aumento de impostos”. De Passos Coelho, o cidadão comum apenas acha que vive bem sem o seu autoritarismo, sisudez patibular e atoardas moralistas.
É verdade que há escassez de figuras com carisma de liderança, à direita do PS (vá-se lá saber porquê).
Mas este entusiasmo sebastianista pelo regresso de Passos Coelho dos elementos do PSD que deploram Rui Rio, e de outros “passistas” da coligação PSD/CDS de má memória, assentando na ideia delirante de que o eleitorado preza alguém cujo currículo consiste na passagem pela JSD e na captação espertalhona de financiamento europeu para uma empresa que ministrava acções de formação inúteis ou fictícias, antes de ser primeiro-ministro do governo mais brutal que tivemos em democracia, e deseja voltar aos congelamentos de carreiras, cortes salariais, supressão de subsídios de férias e Natal e feriados, e à instigação de jovens contra idosos ou do sector privado contra o público, só demonstra uma vez mais a distância a que a nossa classe política vive da realidade.
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