01-03-2021 Imprimir PDF     Print    Print

Jorge Mangorrinha

“O faz-de-conta de que Caldas é uma cidade termal não serve”

A partir desta edição Jorge Mangorrinha vai ser um colaborador regular do JORNAL DAS CALDAS para contar uma história por semana sobre termalismo.

Jorge Mangorrinha junto da peça evocativa de Rodrigo Berquó, inaugurada em 1996, durante a homenagem de que foi comissário
JORNAL DAS CALDAS: A partir desta edição, vai ser um colaborador regular do JORNAL DAS CALDAS. Que matérias vai abordar?
Jorge Mangorrinha: Em primeiro lugar, agradeço o convite do JORNAL DAS CALDAS para contar uma história por semana sobre termalismo, onde tentarei fazer uma ponte entre o passado e o presente, com uma imagem ou desenho a acompanhar.

JC: O termalismo tem sido um tema que o tem acompanhado nos seus estudos, cruzando-o muitas vezes com as Caldas da Rainha. Que diferenças existem entre o termalismo de há 100 anos e o de agora?
JM: Quando a farmacologia se desenvolveu e levou a casa dos pacientes os novos fármacos, isso implicou um paradigma diferente na saúde em Portugal. Quase em simultâneo, os grandes empreendedores do final do século XIX e início do seguinte começaram a dar lugar a outros protagonistas que, por menor sensibilidade ou acrescidas dificuldades com a manutenção dos equipamentos e com o decréscimo de procura, deixaram estagnar algumas estâncias termais. Apenas a partir das décadas de 1980 e 1990, com algumas esporádicas intervenções, como em São Pedro do Sul, Caldas da Saúde e Caldas da Felgueira, em primeiro lugar, e outras mais que se seguiram, se voltou a ter qualidade na oferta e uma maior procura.
Nasceu, entretanto, a complementaridade entre o termalismo médico e o de bem-estar. Presentemente, as termas estão de novo com grandes dificuldades, são investimentos pesados e arriscados. E os utentes têm dificuldades em fazer estadas durante longos períodos, como antes acontecia, os únicos em que se conseguem resultados satisfatórios na saúde dos pacientes, ou seja, em 14 ou 21 dias e duas vezes por ano, por causa das despesas dos tratamentos e do alojamento, atualmente sem apoios razoáveis, porque os responsáveis do Estado não raciocinam quanto aos benefícios de rendimento dos utentes e à consequente diminuição do uso dos fármacos.

JC: Quais as diferenças, nas Caldas da Rainha, entre esses dois marcos temporais?
JM: Nas Caldas, situaria o problema não só nos equipamentos termais como na envolvente urbana. Há um século, a então vila tinha cerca de 6.800 habitantes e uma economia relevante, em resultado do movimento do seu hospital termal, mas já a perder em relação ao início do século, quanto ao veraneio. Quando, no começo da década de vinte, as autoridades locais se aperceberam do decréscimo de visitantes e turistas, iniciaram uma importante campanha de recuperação. Constitui-se a Comissão de Iniciativa, organizam-se exposições e competições desportivas, reparam-se estradas, ruas e caminhos, criam-se clubes, intensifica-se a propaganda pelo país e aproveita-se o facto de ser ponto de passagem quase obrigatório para Alcobaça e Batalha. Este conjunto de dados veio beneficiar a nova cidade de forma muito diversa, e o seu Hospital Termal nunca deixou de funcionar.
Presentemente, temos uma realidade muito diferente. O complexo do Hospital Termal aguarda a sua reabertura na íntegra e a cidade capacitou-se de inúmeras atividades económicas e sociais, vivendo nas últimas décadas à margem da sua raiz urbana.

JC: A convite do Turismo de Portugal, é coordenador do novo curso executivo em turismo de saúde e bem-estar, a decorrer na Escola de Hotelaria e Turismo do Oeste. Que balanço faz até agora?
JM: O convite do Turismo de Portugal, no ano passado, é um desafio, com raiz há cerca de 10 anos, quando presidi às comemorações do centenário da institucionalização do turismo em Portugal e lancei a ideia junto da direção responsável no Turismo de Portugal. O curso pode, então, vir a ser a semente daquilo que tenho defendido para as Caldas, como sede de um centro de investigação nesta área técnica e científica. É a ideia de uma rede polinucleada, que poderá ter pontos noutras estâncias e junto de investigadores do país, bem como no Brasil. O desenrolar do curso está no bom sentido, com entusiasmo por parte dos alunos, que são originários de norte a sul do país, e uma satisfação evidente por parte da direção da escola.

JC: Em que medida poderá ser importante para esta região?
JM: Falarmos de turismo de saúde e bem-estar, ou seja, termalismo, talassoterapia, spas, turismo médico e turismo espiritual, nesta região, é falarmos de raízes com novas ofertas que a complementam, com uma ideia de projeto integrado. Caldas sempre teve o essencial para singrar como uma cidade baseada na saúde, se pensarmos em termos holísticos.

JC: Acredita que as Caldas ainda se podem tornar numa cidade termal?
JM: Depende daquilo que as autoridades políticas entenderem sobre o que é uma cidade termal. Aliás, eu próprio já escrevi e publiquei muito sobre isso. A minha tese de doutoramento versa o conceito de uma cidade termal.

JC: E o que é preciso fazer?
JM: Uma cidade termal é sistémica e tem, obrigatoriamente, uma economia e uma cultura importantes associadas à atividade da saúde por meio da aplicação crenoterápica da água mineral natural e às manifestações que envolvam os aquistas, visitantes e residentes. Sem isso, não deverá ter esse título. O faz-de-conta não serve, muito que se esteja ligado a redes ou associações do setor. É preciso mostrar pelas ações e pelas estatísticas. Mas é um início para o reinício, embora eu tenha muitas reservas. É preciso que o poder político local dê provas de atuação informada, consistente e sustentável.


“Acredito num hotel nos Pavilhões do Parque mas não nos termos em que foi lançado o concurso”


JC: A propósito, o que pensa da atuação do poder local e do poder central quanto ao património termal, seja ele edificado ou ambiental?
JM: Em relação ao poder local, acredito que seja possível melhorar o desempenho, tal como prever, para curto prazo, um novo balneário de raiz e preservar e reabilitar o património ambiental e permitir nele, apenas, usos adequados. Em termos do poder central, já se classificaram conjuntos termais, como consequência do trabalho que, em 2006 e 2007, coordenei cientificamente no ex-IPPAR, ao contrário do conjunto termal das Caldas, para o qual propus, desde logo enquanto vereador, a sua classificação como monumento nacional, mas que espera, porque houve, em tempos, pressões por parte da Câmara e do Centro Hospitalar e um parecer absurdo de retirar a Mata do conjunto, tal como viria a acontecer. Eu vi esses documentos.

JC: Acredita no sucesso de um hotel nos Pavilhões do Parque?
JM: Acredito, mas sem os usos nefastos do Parque e não nos termos processuais em que foi lançado o concurso. Desta vez, houve a sorte de surgir um programa no Turismo de Portugal que deu enquadramento, mas partiu-se de erros de princípio, que inquinaram os passos seguintes. Com este impasse que se mantém, a Câmara e o seu presidente têm a última possibilidade de correção, talvez ouvindo e trazendo até si o saber fundamentado de outras pessoas. É preciso bom senso e conhecimento, mas também a ambição de fazer desta intervenção um marco na hotelaria e na reabilitação arquitetónica.

JC: Estaria disponível para colaborar?
JM: Nunca reneguei a minha colaboração, mas é preciso que a queiram e a respeitem. Repare, a propósito da pergunta que me faz, há caldenses fora das Caldas que podiam colaborar nas suas áreas. Porque é que não se aposta na diáspora caldense, para integrá-la numa visão de futuro? Ver de fora é diferente e complementar ao olhar de dentro. Para além de um pensamento sobre a ideia sistémica de uma cidade termal, também considero importante evocar o passado, designadamente, o ano de 1927 de elevação ao estatuto de cidade, para o que tenho ideias sobre isso e sobre o trabalho que é preciso fazer desde já, que poderei debater se a Câmara me quiser ouvir e não adjudicar o desafio ao seu comissário de serviço, redundantemente.
Para quem já trabalhou e estudou as termas à escala mundial e que tem no currículo um conjunto de trabalhos de estudo, diagnóstico e planeamento, contribuir para que Caldas da Rainha possa retomar o seu passo de referência termal não seria de estranhar. O que impede isso? Talvez tenha que perguntar a outra pessoa.


“Só pode ser presidente da Câmara quem tiver um aparelho partidário ou um movimento de cidadãos sólido”


JC: No seu percurso profissional de mais de 30 anos, esteve quatro anos na Câmara Municipal como vereador, entre 2002 e 2005. O que ficou e o que não ficou da sua intervenção política?
JM: O passado é irrepetível. Digo que abracei esse desafio como exemplo de pensamento e modo de agir diferentes, num contexto tão lamacento como é o da política, consciente dos riscos pessoais e políticos, bem como dos ataques indecentes de uma certa Imprensa, que se vieram a concretizar. Cumprindo o mandato, acordei a minha saída com o presidente Fernando Costa, o que até me facilitou o meu percurso académico e profissional. Fiz o doutoramento, voltei ao meu cargo na Câmara de Lisboa, coordenei um diagnóstico sobre o património termal para o ex-IPPAR, presidi ao centenário do turismo e passei a ser docente universitário, sem querer quaisquer benesses por parte da Câmara das Caldas, nem mesmo o subsídio de reintegração a que tinha direito.
Ficou uma equipa de trabalho, ficou o método e ficaram alguns planos e projetos, uns que foram deliberadamente abandonados e outras ideias que foram continuadas, designadamente alguma regeneração urbana e o transporte urbano, bem como parte do trabalho posterior do vereador Hugo Oliveira. A política é feita de descontinuidades e continuidades. Cabe aos cidadãos expressarem a sua opinião sobre o trabalho feito, através do voto, face às possibilidades de candidatos.

JC: Gostaria de ser presidente da Câmara?
JM: Uma coisa é gostar, porque se pensa ter habilitações, visão e capacidade de trabalho. Uma outra coisa é poder ser. Quero com isto dizer que só poderá ser presidente da Câmara quem tiver um aparelho partidário ou um movimento de cidadãos absolutamente sólido. Fazer política tem o seu lado desafiante, mas também um lado difícil, face à exposição pública. O trabalho autárquico é muito exigente e merecem-me consideração todos aqueles que querem fazê-lo, sobretudo se for feito em prol da causa pública e não para proveito próprio. Humanamente, o atual presidente das Caldas é uma pessoa que estimo, somos da mesma geração, fomos colegas no executivo, mas parece ter um problema de cariz político, interno ao PSD, que o impede, talvez, de agir de outra forma e de trazer para junto de si outras pessoas que estão fora do mecanismo partidário e que lhe poderiam acrescentar conhecimento nalguns setores, mesmo que tenham uma marca vincada.

JC: No seu histórico político, já serviu ou foi abordado por diferentes forças políticas. Como se sente olhando para trás?
JM: Eu tenho uma raiz, que não esqueço. Mas, sim, fui convidado por diversos partidos, da esquerda à direita, alguns convites que se tornaram públicos e outros não, uns que aceitei e outros não, sempre numa perspetiva de poder local e de causas públicas, e não tanto em termos ideológicos, por isso aquilo que possa parecer incoerente acaba por ser a minha coerência política. Sempre pelas Caldas!

JC: Acredita na cidadania?
JM: Um dos projetos que negociei com o presidente Fernando Costa foi o da criação de um Conselho da Cidade, que funcionou, mas foi completamente subvertido após a minha saída da Câmara, por alheamento dos órgãos eleitos autárquicos. Hoje, lamentavelmente, não é mais do que uma associação igual a muitas outras, sem a função inicialmente prevista de conselheira da autarquia, ainda assim atuante. De uma forma mais vasta, acho que os cidadãos passaram a ter voz nas redes sociais, mas há um lado pernicioso nisso, em articulação com a desconfiança em relação à política e aos políticos, ou seja, o de não participarem de outro modo no processo evolutivo do município, o que reduz o destino da comunidade a muito poucos.


“A escrita de letras para temas musicais é um dos meus hobbies”



JC- Em termos artísticos, tem participado na escrita de letras para temas musicais. Há quanto tempo se dedica a isso?
JM: Isso é um dos meus hobbies, apenas isso, que me preenche os meus tempos livres das responsabilidades profissionais, mais ou menos desde há cerca de 10 anos.

JC:- Quais os principais trabalhos?
JM: Eu já trabalhei com diversos compositores e cantores. Foram editados dois discos, “Viagens do Fado”, em 2016, e “Fado à la Carte”, em 2019, este apenas nas plataformas digitais, e escrevo poemas e letras para discos de diferentes artistas.

JC: Ultimamente, surgiu uma canção dedicada aos 20 anos de geminação das Caldas da Rainha com Poços de Caldas (Brasil). Como foi o processo até à recente divulgação?
JM: Escrevi o poema no ano passado e o compositor brasileiro Lorinho Fonseca musicou-o e também lhe deu voz conjuntamente com Cassinho da Rocha.



Biografia

Pós-doutorado em turismo (2014) pela Faculdade de Economia da Universidade do Algarve, e doutorado em urbanismo (2009) pela Faculdade de Arquitetura da Universidade Técnica de Lisboa. Depois de dez anos a lecionar na Universidade Lusófona, em Lisboa, passou a coordenador do curso executivo de turismo de saúde e bem-estar, do Turismo de Portugal. É quadro superior da Câmara Municipal de Lisboa.
Autor de estudos, projetos e intervenções públicas em diferentes países e áreas científicas, possui capítulos de livros e livros publicados, bem como itens de produção técnica.
Participou em eventos no estrangeiro e em Portugal. Tem orientado dissertações de doutoramento e de mestrado nas áreas da arquitetura e do turismo.
Politicamente, nas Caldas da Rainha, foi deputado municipal e vereador. Recebeu a medalha de mérito municipal (2000).
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