15-07-2020 Rui Calisto Imprimir PDF     Print    Print

Escaparate

O carneiro na política

Eis um ser curioso: O velígero político! Um indivíduo que não tem por hábito pensar ou refletir acerca de assuntos importantes, porque não consegue chegar a nenhuma conclusão ou porque acredita piamente no seu líder (este é, geralmente, um indivíduo sem escrúpulos, ganancioso e corrupto, que sabe muito bem o que deseja: Poder e dinheiro).

O Ovis Aries é obediente ao extremo, sendo, portanto, de desmedida relevância económica para “o seu dono”. Vulgarmente não dá muita despesa, pois alimenta-se de sobras, embora acredite que o que recebe no repasto é caviar, quando, efetivamente é apenas palha.
Criado em cativeiro (dentro da sede do partido) dá menos trabalho ainda. Sem notar, devido ao alto volume de ar entre as orelhas, acaba por não compreender o que significa ter uma ideologia política, o que dá imenso jeito ao tal “líder”.
Quando se aproxima a época de eleições internas (no seu partido) é natural, para o carneiro, ter a atenção voltada para as palavras que saem da boca do “dono”, estas, normalmente, resumem-se a “cuidado, devemos manter-nos juntos na defesa do nosso candidato, pois “os nossos adversários” querem destruir o nosso partido”. E o chafardel (conjunto de carneiros) acredita piamente nisso, nem se dispondo a ouvir os tais adversários, e as suas propostas.
Quando a eleição é externa (autárquicas ou legislativas) é ainda mais fácil manipular o carneiro, basta colocar-lhe uma bandeira numa das mãos, um punhado de papeis na outra e ensaboar-lhe os ouvidos com: “O teu contributo, neste momento, é fundamental, sem o teu vigoroso trabalho jamais conseguiremos mudar o concelho, ou o país, para melhor”. Poderia conotar esse tipo de coisa como lavagem cerebral, mas, como entre aquelas orelhas passa um túnel de vento, efetivamente, essa conexão não encaixa, fazendo-me crer que é necessário vasculhar a Língua Portuguesa para encontrar o termo certo.
Como o meu querido leitor sabe, o carneiro é um bicho marrento, o que o torna ainda mais manipulável, por incrível que possa parecer. Comummente, o seu comportamento é tranquilo por fora, porém, esgazeado por dentro, pois, bem no íntimo, acredita que é importante ao partido, e à sociedade, o que o faz matutar/marrar acerca da alimentação que lhe pode cair no estômago, porém, que ironia, resta-lhe quase sempre a refeição mais barata, ou seja, o pasto.
Geralmente, um ano após as eleições internas (cada mandato, geralmente, tem a duração de dois anos), o carneiro começa a ruminar com o seu chafardel, indicando que, afinal, nenhuma mudança positiva ocorreu no seio do partido, levando-o ao grande pensamento, àquele que lhe corrói as entranhas: “Será que votei no candidato certo para a Concelhia?”. Ruminação que, em mais algum tempo será esquecida, pois, nova eleição surge e o seu túnel de vento o obrigará a não compreender que voltará a ser manipulado.
Já no que respeita, por exemplo, às Autárquicas, o carneiro pode receber - como pagamento pelo facto de ter carregado a bandeira e ter distribuído alguns papelotes - um lugarzinho na lista para a Assembleia Municipal. Posto que muito estima, pois, é dali que aufere alguns trocados, bem como certo respeito pela comunidade. Embora não saiba muito bem qual deve ser o seu contributo num órgão como aquele, o que o faz perguntar insistentemente à sua base política: “E, esta proposta, devo votar a favor, contra ou abster-me?”.
Frequentemente, o “líder” utiliza a manipulação psicológica como modo de angariar carregadores de bandeiras e, em sequência, eleitores dentro do partido, ou seja, mão-de-obra barata para conseguir alcançar os seus intentos.
Como resultado, o carneiro passa a ser uma instituição importante dentro da máquina partidária, sendo, também, vital para a expansão da ignorância, pois, quantos mais obtusos existirem dentro de um partido, mais chance possui o líder medíocre de atingir os seus objetivos.
E, o comum do eleitor, aquele que não participa de um partido político, mas, é patriota, e vota em todas as eleições nacionais, com um arraigado amor pela pátria em que nasceu, ou vive, nem imagina que possa existir esse organismo tão importante na política: O carneiro!

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