07-02-2019 Lusa, Leiria Lusa / Notícias Imprimir PDF     Print    Print

Pedrógão Grande: Ex-CODIS de Leiria aponta vários erros à acusação do MP de Leiria

Leiria, 07 fev (Lusa) – O ex-comandante distrital de operações de socorro de Leiria (CODIS) Sérgio Gomes apontou hoje vários erros à acusação do Ministério Público, durante a sessão da fase de instrução do processo sobre o incêndio de Pedrógão Grande.

“Isso é mais um erro que consta na acusação” foi a frase mais vezes proferida por Sérgio Gomes no Tribunal de Leiria, nas declarações ao juiz de instrução do processo sobre as responsabilidades do incêndio de 2017 em Pedrógão Grande, que tem 13 arguidos.

O ex-CODIS explicou que cumpriu todas as regras e hierarquias que constam na organização da Autoridade da Proteção Civil, garantindo que o facto de estar a comandar à distância não teve qualquer influência.

“Diz na acusação que fui para Torres Vedras, onde o meu filho foi operado e que era uma cirurgia de rotina. É um erro que está na acusação. O meu filho sofreu um acidente e teve de ser operado de urgência”, adiantou.

Sublinhando que a sua função “não é despachar meios”, responsabilidade que pertence à sala de operações, Sérgio Gomes insistiu que, desde que soube do incêndio de Pedrógão Grande, estabeleceu vários contactos para saber da disponibilidade de meios.

Sérgio Gomes referiu ainda que, na fase inicial, quem comandou foi Augusto Arnaut, comandante dos Bombeiros Voluntários de Pedrógão Grande.

“Estive sempre em contacto com ele e, logo a seguir ao ataque ampliado, fiz seis ou sete telefonemas para comandantes para saber que equipas poderiam apoiar o incêndio”, afirmou.

O ex-comandante distrital de operações de socorro de Leiria disse ainda que não tinha “autonomia para enviar meios aéreos ou despachar meios dos corpos de bombeiros”.

“Tinha de me valer dos meios que tinha, depois de seguir todas as regras estipuladas”, salientou.

O ex-CODIS de Leiria recordou também que o incêndio ocorreu na então Fase Bravo, em que não era obrigatório haver pré-posiciomento de meios, nem havia ainda freguesias prioritárias.

“O Centro de Meios Aéreos em Figueiró dos Vinhos nem tinha ainda um único meio aéreo”, disse.

Sérgio Gomes revelou igualmente que pediu mais meios, mas “não havia”.

“Cinquenta minutos depois há o incêndio em Figueiró dos Vinhos e a acusação faz tábua rasa disso e envolveu mais de 100 elementos”, lamentou.

O advogado de defesa do ex-comandante distrital de operações de socorro de Leiria, Paulo Farinha Alves, sublinhou que Sérgio Gomes abordou “um conjunto de circunstâncias que a acusação fez confusão ou não soube ou não quis”.

Além disso, acrescentou “há um conjunto de erros muito grosseiros por parte da acusação que pressupõe um conjunto de coisas que não existe”.

“Temos aquela perspetiva de encontrar responsáveis de natureza individual, mas se pensarmos que há aqui 12 ou 13 pessoas que podem ser responsabilizadas em função daquilo que se passou, primeiro não estamos a resolver problema absolutamente nenhum e, sobretudo, estamos a agravar um problema”, adiantou.

Segundo o advogado, “estas ocorrências vão acontecer e o país não estava preparado para isto”.

“Houve um conjunto de erros muito significativos nas últimas décadas, provavelmente nunca se olhou para a floresta da forma como se deve olhar, antes desta ocorrência”, sublinhou.

Paulo Farinha Alves considerou ainda que se tratou de um problema de “ocorrências de fenómenos atmosféricos muito significativos”.

Não querendo falar sobre os restantes arguidos, o advogado disse apenas que “falta a noção de que esta questão é muito complexa e a análise de responsabilizarmos um conjunto de pessoas, que fizeram o melhor que podiam e sabiam, não é obviamente correta”.

Sobre Sérgio Gomes, Paulo Farinha Alves sublinhou que “não se pode pensar que existe uma responsabilização de uma pessoa que vai acorrer a uma situação de socorro e considerar que ele é responsável pelo acidente ou pelo incêndio”.

“Há um conjunto de pressupostos de facto. São errados e suscitamos e queremos que o senhor juiz aprecie e confiamos na justiça. Há fenómenos climáticos extremos, mas, mais do que isso, essa acusação de uma ponta à outra, pelo menos no que diz respeito ao arguido que represento, não corresponde à realidade e tem um conjunto de erros e de pressupostos”, argumentou.

São arguidos neste processo 13 pessoas, incluindo os presidentes dos municípios de Castanheira de Pera, Figueiró dos Vinhos e Pedrógão Grande em funções à data dos factos: Fernando Lopes, Jorge Abreu e Valdemar Alves, respetivamente.

Estão acusados de dezenas de crimes de homicídio por negligência e de ofensa à integridade física por negligência.

O grande incêndio que deflagrou em 17 de junho de 2017 em Escalos Fundeiros, concelho de Pedrógão Grande, e que alastrou depois a municípios vizinhos, nos distritos de Leiria, Coimbra e Castelo Branco, provocou 66 mortos e 253 feridos, sete deles com gravidade, e destruiu cerca de 500 casas, 261 das quais eram habitações permanentes, e 50 empresas.

 

EYC // VAM

 

Lusa/FIM.

 

 

 

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