09-12-2019 Rui Martins Imprimir PDF     Print    Print

Os tempos da hipersimplificação da política

Existe uma nítida hipersimplificação da mensagem política nas sociedades actuais que explica muito do sucesso dos movimentos populistas de esquerda e direita e da erosão na representação dos partidos moderados e que vão desde a direita Liberal e conservadora (em Portugal até ao CDS) até aos partidos ligeiramente mais à esquerda dos de centro-esquerda (até ao BE e PCP em Portugal).

Esta hipersimplificação está ligada ao fenómeno da política "fastfood" em que o cidadão (a metade que vota em Portugal ou os 25% nos EUA ainda participam nas eleições) não tem nem paciência, nem preparação para analisar os programas eleitorais e a capacidade dos partidos para os executarem e opta por decisões simples, com dados primários ou simplificados ou pré-mastigados por comentadores profissionais para decidir o seu sentido de voto. A política profunda, de longo alcance, que repudia a constante presença dos holofotes e a espuma dos dias dos pequenos factos ou da demagogia de massas e que não teme apresentar os factos tal como eles são e que opta pelo longo em detrimento do curto prazo não é recompensada. Nesta "política dos dias" feita de soundbytes e de happenings a profundidade é a das poças de água à beira-praia e importa mais a capacidade mimética ou a capacidade performativa do actor do que o conteúdo da peça que memorizou e que agora leva a palco.
Estes são os tempos da fulanização radical da política e do protagonista que seca tudo à sua volta. São os tempos em que dentro dos partidos se torna muito difícil construir alternativas de poder e onde qualquer discurso que se afaste do panegirico puro é automaticamente demarcado e isolado. Estes são também os tempos em que os partidos se apagam, onde perdem conteúdo ideológico, onde ninguém - realmente - lê os programas eleitorais e onde os protagonistas esgotam todo o palco mediático numa busca incansável pelo último twet, pela último modelo de saia-assessor ou da mais gritante frase-bomba. É a política da espuma dos dias, sem conteúdo nem substância que explica a desilusão da maioria dos cidadãos pela política activa e que deixa o palco vazio para que possa - mais facilmente - ser preenchido pelos populismos de esquerda ou de direita que agora entraram no Parlamento e que o contam usar como plataforma de projecção de poder.
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